Por: Cláudio Costa | 2 anos atrás

Poucos lugares em Jaraguá do Sul tiveram a relevância histórica e política que o Bar Catharinense teve. A edificação ficava localizado na esquina da rua Emílio Carlos Jourdan com a avenida Getúlio Vargas e foi ponto de encontro dos jaraguaenses durante décadas. Construído em 1931 por Bernardo Meyer, o prédio em estilo art-decô foi dado para a sua filha Charlotte Helena Meyer. O estabelecimento foi administrado pela família por aproximadamente 50 anos.

Segundo o historiador Ademir Pfiffer, o estilo do prédio, demolido em 2008, combinava com a de diversas edificações que marcaram a história da cidade. “Alguns exemplos são o salão Cristo Rei, edificado na década de 40, o Cine Jaraguá, o Hotel Central e a própria Capela Santa Emília, que por volta de 1930 foi designada como São Sebastião”, avalia Pfiffer, ao destacar que o Bar Catharinense foi o mais importante deles.

Bar Catharinense ficava ao lado da Estação Ferroviária. Foto: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Bar Catharinense ficava ao lado da Estação Ferroviária. Foto: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

O Bar Catharinense ficava em frente à primeira estação ferroviária da cidade. “Este local era de grande fluxo de pessoas, que saíam e chegavam a Jaraguá do Sul pela ferrovia. O Bar Catharinense era um ponto de encontro dessas pessoas”, comenta a historiadora Silvia Kita, chefe do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul. Kita explica que o local concentrava a discussão das notícias, que chegavam pela linha férrea. Além disso, muitas pessoas paravam no local para pedir informações.

O Bar Catharinense era um ponto de parada obrigatória para quem estava transitando pelas ruas principais de Jaraguá do Sul. Lá, também passavam muitas das pessoas que desembarcavam para ir até as outras localidades da região do Vale do Itapocu. O local recebeu os pracinhas de todo o Vale do Itapocu e Vale do Itajaí, em 1945. “Os pracinhas tiveram que se locomover para as suas casas de ônibus ou com outro transporte pago. Alguns pais vieram buscar os filhos soldados, mas antes passaram pelo Bar Catharinense”, contextualiza Ademir Pfiffer.

Foto mostra a avenida Getúlio Vargas e o Bar Catharinense na década de 90. Foto: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Foto mostra a avenida Getúlio Vargas e o Bar Catharinense na década de 90. Foto: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

“Esse local passou a ser um polo de divulgação de informações na cidade e de discussões das notícias que chegavam ali naquela região. Ali houve discussões políticas, sociais e foi palco de encontros e desencontros, como podemos assim dizer”, explica Kita. “É um local que a gente toma como um importante centro social, de grande importância para aquela época, da década de 30 até a de 60”, ressalta a historiadora.

“O Bar Catharinense era conhecido como ‘a boca maldita’. Neste espaço, entraram os principais políticos após a emancipação da cidade (em 1934). Personalidades da história política da cidade, como o doutor Murilo Barreto e Eugênio Victor Schmöeckel, frequentavam o local. Lá, eram costuradas as alianças da UDN (União Democrática Nacional), liderada por Arthur Müller, e do PSD (Partido Social Democrático), liderado por Waldemar Grubba”, destaca Pfiffer.

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Bar Catharinense em 2003. Foto: Altamir Ricardo de Souza/PMJS/Acervo do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

De acordo com Silvia Kita, o prédio foi perdendo com o tempo a sua importância política. “Com a construção da Prefeitura, no final de 41, os bares que ficavam próximos a essa edificação é que passaram a fazer parte desse contexto histórico. Embora, o Bar Catharinense ainda exercesse uma grande influência”, frisa a historiadora. Segundo Kita, locais como o bar que ficava na nova Estação Ferroviária e o bar da Estação Rodoviária, edificados em 1943 e 1944, respectivamente, também começaram a concentrar as discussões políticas, polarizando as reuniões do gênero.

“As pessoas de um determinado partido se reuniam em um local e as de outro partido em outro”, exemplifica a historiadora. Segundo Kita, discussões mais acaloradas acabavam em brigas, mas o Bar Catharinense era tido como um estabelecimento familiar. “Há relatos de que as pessoas que trabalhavam lá eram muito sociáveis e distribuíam balas e pirulitos para as crianças”, enfatiza a chefe do Arquivo Histórico.

Para Sivia Kita, ainda há um vasto campo de pesquisa sobre a época e os costumes das pessoas que frequentavam a região do entorno do Centro Histórico, que era composto por estabelecimentos como o Bar Catharinense e o Comércio Breithaupt. “Há questões que podem ainda ser motivo de pesquisa com as pessoas que viviam ali. Para dizer exatamente quais eram as principais falas e conversas que aconteciam no interior do bar, enquanto patrimônio histórico e social do município”, conta Kita.

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