Por: Sistema Por Acaso | 3 anos atrás

Por mais violentas que sejam as palavras que uma pessoa possa proferir online, há também o (geralmente) contrastante contraponto de sua própria imagem.

Assim como no trânsito, nos ataques online esquece-se que ali, do outro lado, há uma pessoa com família e sentimentos. Mas isso é válido também para os agressores, certo? A ativista LGBT russa Elena Klimova lembrou disso, e organizou um “comeback” inesperado: a montagem do álbum “Pessoas Bonitas e o que Elas me Dizem”.

O que acontece quando o ódio invade o contexto do amor? A ativista fez a associação:

Outro homem, que é visto em imagem num barco com uma mulher, disse a Lena: "Eu serei o primeiro a acender a estaca na qual você vai queimar. Você tem até olhos de drogada, seu pedaço vomitado de m*?"

Maxim, marido, pai de uma linda menina, e sua mensagem: “Eu serei o primeiro a acender a estaca na qual você vai queimar. Você tem até olhos de drogada, seu pedaço vomitado de merda.” Wow!

E o choque dos contrastes prosseguiu. Selfies alegres, momentos fofos e românticos, todos são fulminados pelas palavras violentas:

"Queime no inferno, todos vocês pervertidos! Se eu te visse, iria te estrangular com minhas próprias mãos", disse à ativista uma mulher identificada como Kristina

“Queime no inferno, todos vocês pervertidos! Se eu te visse, iria te estrangular com minhas próprias mãos”

Aisha, que aparece na foto, escreveu para Lena: "Da minha parte, acho que você é uma vadia estúpida. Você acha que está ajudando alguém com essa cruzada santa? Vá e se mate antes que eles venham até você!!! Pessoas como você deveriam ser presas!"

“Da minha parte, acho que você é uma vadia estúpida. Você acha que está ajudando alguém com essa cruzada santa? Vá e se mate antes que eles venham até você!!! Pessoas como você deveriam ser presas!”

Alexander, que aparece em imagem com cachorro, chamou a ativista de "vadia de m*". "Por que demônios você está fazendo propaganda de bichas? Claro, ninguém quer te comer, mas isso é problema seu. Feche esse grupo nojento. Ou então vou eu mesmo pegar uma dessas bichas e espancá-la até a morte", disse.

“Por que demônios você está fazendo propaganda de bichas? Claro, ninguém quer te comer, mas isso é problema seu. Feche esse grupo nojento. Ou então vou eu mesmo pegar uma dessas bichas e espancá-la até a morte”.

"Eles vão te trancar a qualquer momento. O que você está fazendo não pode ficar impune. Espero que você queime no inferno e agonize por muito tempo por fazer propaganda de homossexuais! Morra, escória nojenta. Saia do nosso país, seu pedaço de m*", disse Elizaveta, que aparece na foto, à ativista LGBT.

“Eles vão te trancar a qualquer momento. O que você está fazendo não pode ficar impune. Espero que você queime no inferno e agonize por muito tempo por fazer propaganda de homossexuais! Morra, escória nojenta. Saia do nosso país, seu pedaço de merda”.

"Lena, eu te odeio. Você é nojenta e, se eu tivesse o poder, te mataria a tiros. Espero que eles proíbam seu projeto e te ostracizem da sociedade. Ninguém precisa de você a não ser gente esquisita como você", ameaçou Kolya, que aparece na foto de casal.

“Lena, eu te odeio. Você é nojenta e, se eu tivesse o poder, te mataria a tiros. Espero que eles proíbam seu projeto e te ostracizem da sociedade. Ninguém precisa de você a não ser gente esquisita como você”

A pergunta que fica ao fim é “quem realmente são essas pessoas?” Talvez nem elas se reconheçam mais.

Lena, como é conhecida, fundou o Children-404, um grupo on-line de apoio a jovens gays. O nome cita o código de erro de páginas não encontradas na internet -uma crítica à invisibilidade causada, segundo militantes e organizações de defesa dos direitos humanos, pela legislação russa que pune “propaganda gay” com prisão.

Por isso, um dos lemas da entidade é “Adolescentes LGBT: nós existimos”.

"Quando você vai finalmente fechar seu grupo f*? Eu odeio essa m*. Te matar a tiros, sua putinha, é só o começo do que você merece", diz um dos "odiadores" em mensagem à artista e ativista LGBT Lena Klimova

“Quando você vai finalmente fechar seu grupo f*? Eu odeio essa m*. Te matar a tiros, sua putinha, é só o começo do que você merece”

“Pessoas Bonitas e o que Elas me Dizem”, foi publicado na rede social russa Vkontakte e também no Facebook. A rede social norte-americana, porém, excluiu as imagens sob a alegação de que feriam a regra de conduta que proíbe “compartilhamento de informações pessoais para chantagear ou assediar pessoas”.

Homofobia do estado
Klimova chamara a atenção antes em manifestações para expor a situação dos direitos humanos na Rússia antes dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014.

Detida e processada sob a acusação de promover propaganda gay para menores, foi absolvida, mas outra ação tirou do ar a página do Children-404.

A Rússia descriminalizou a homossexualidade apenas em 1993, após o fim da União Soviética. Seguiu-se uma onda liberalizante que foi gradualmente interrompida após a ascensão de Vladimir Putin, em 1999.

No poder, Putin, ex-agente do serviço secreto soviético e hoje aliado à Igreja Ortodoxa Russa, alimenta o que analistas ocidentais chamam de “homofobia de Estado”, como proibição de eventos e detenção de ativistas.

Em 2013, foi aprovada uma lei que veta a “propaganda de relações sexuais não tradicionais a menores de idade”.

A legislação prevê prisão e multas de até US$ 150 (R$ 470) para indivíduos e de até US$ 30 mil (R$ 93,7 mil) para organizações, além de medidas mais severas em caso de transmissões pela internet. Estrangeiros que violem a lei podem ser detidos por 15 dias.


Fonte: Folha de São Paulo.