Por: Tita Pretti | 4 anos atrás

professor
Lamentavelmente, a imprensa e as redes sociais estamparam diversas fotos dos ataques da polícia aos trabalhadores que se reuniram ontem (quarta, 29 de abril) nas ruas que circundam o Palácio Iguaçu e a Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba. 

Os professores estaduais que estão em greve estavam no local para protestar contra o projeto de lei que mexe na previdência estadual e acompanhar a votação marcada para iniciar às 15h. Mas ele foram impedidos de entrar no plenário da Assembleia e viram o Centro Cívico se transformar em um verdadeiro cenário de guerra.

Quem acompanhou tudo de perto foi a professora jaraguaense Sarah Roedel Drechsel, que hoje vive em Curitiba e leciona Filosofia no Colégio Estadual do Paraná, a instituição mais próxima do local onde a selvageria aconteceu. Conversamos com ela agora pouco e, ainda abalada, ela contou o que viu por lá. Sarah disse que ainda estava com o rosto ardendo, por conta das bombas de gás lacrimogênio.

ataque

Confira o depoimento:

“Chegamos lá às 14h30. Quinze minutos depois, já começou a confusão. Havia um cordão de policiais e carros para bloquear a Assembleia. Alguns manifestantes quiseram invadir o portão pedindo para que pudessem participar da sessão, mas sem usar de violência. Foi aí que a bagunça começou.

Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

O que aconteceu foi um ataque covarde, não um confronto entre professores e a polícia, como muitos veículos da imprensa andam dizendo. Confronto seria se os dois lados estivessem atacando, mas não foi isso que aconteceu. Foram mais de duas horas de bombardeio, sem parar. Uma situação chocante, inacreditável. Ainda não consegui processar as informações.

Como já havia ocorrido uma confusão na terça-feira e a votação foi adiada, imaginávamos que a ação da polícia seria mais localizada, caso fosse necessário intervir. Mas não foi assim, foi um ataque generalizado. Teve helicóptero dando rasante em cima do acampamento dos professores, apontando armas para intimidar e soltando bombas de gás lacrimogênio. Quando o Choque começou a atirar, muitas pessoas ficaram sem saber o que fazer e não conseguiram nem fugir do local. E no fogo cruzado, não tem pra onde correr. Teve muito choro, choque e crises de histeria.

Foto: Joka Madruga/Reuters

Foto: Joka Madruga/Reuters

Muita gente recuou com a tropa de choque, indo para trás das árvores, na tentativa de se proteger. Mas não adiantava, porque jogavam bomba pelas nossas costas. Eles queriam que nós recuássemos e atacavam mais ainda! A quantidade de explosões foi algo surreal. Com muitos feridos, nem a ambulância conseguia entrar no cerco formado pela Polícia e pelo Choque.

Até mesmo policiais ficaram estarrecidos com as ordens que foram dadas a eles. Um deles comentou que estava do nosso lado, que gostaria de ajudar, mas estava fardado. Menos da metade do contingente policial atacou os manifestantes, os outros ficaram com um olhar de pesar. Tanto é que 17 policiais se negaram a participar do cerco e foram presos.

Uma das coisas mais aterrorizantes foi ouvir os pedidos de clemência dos sindicalistas feitos pelo microfone, do carro de som. Eles pediam: ‘Por favor, parem, queremos recolher nossos feridos’. Cena de guerra, mesmo. Colegas de profissão foram presos, alunos da minha escola ficaram feridos (inclusive, tinha menores de idade lá), vi uma professora de 60 anos de idade ferida dentro da ambulância do Samu. Uma violência desmedida.

Um dos alunos da escola de Sarah, foi atingido no rosto pelas balas de borracha

Um dos alunos da escola de Sarah, foi atingido no rosto pelas balas de borracha

Pelo tanto de munição que tinha por lá, parece que já tinha sido premeditado. A cavalaria não foi utilizada, mas estava a postos. A truculência é da polícia, mas o repúdio é por quem deu as ordens. Teve policial vindo de outras cidades que precisou pagar a própria estadia de hotel. Eles ficaram lá sem beber água, comer, ir ao banheiro, com pressão e ainda sem dinheiro. É claro que na primeira ordem eles vão estar estressados, vão atacar.

Ouvi muitos gritos de ´fascistas´, ´covardes´ e ´basta´ dos manifestantes . Tivemos que ouvir o presidente da Assembleia (Ademar Traiano, do PSDB) dizendo que o que ocorria lá fora não era problema deles e como não havia bomba lá dentro a sessão deveria continuar.

fogo

Às 19h, o bombardeio ainda não havia cessado. Quando a situação normalizou, um grande grupo de professores caminhava pela Avenida Cândido de Abreu com uma cara de velório, uma sensação de abatimento, derrota, humilhação. Um dos policiais disse que o governo do estado (liderado por Beto Richa) nunca ordena que joguemos bomba nem em traficante. Mas em nós professores, sim.

Para aquelas pessoas que pedem pela intervenção militar, esta aí é uma amostra grátis. Vivemos em uma ditadura velada. Cercearam a cidade sem avisar à Prefeitura, deslocaram policiais da fronteira do estado (onde eles precisam estar para proteger as reais ameaças) e abusaram do poder. A sensação é de impotência. O governador culpou os manifestantes e supostos black blocs pelo que chamou de ´ação de defesa´ da PM. Definitivamente, não há argumentos que justifiquem a ação. Ainda estou tentando entender o que aconteceu.”

professores

luto

Segundo a Prefeitura de Curitiba, 213 pessoas ficaram feridas, em mais de duas horas em conflito, com uso de bombas de efeito moral, tiros de balas de borracha, jatos d’água, gás lacrimogênio e gás de pimenta. A Secretaria de Segurança Pública afirma que 20 policiais também ficaram machucados no tumulto. Sete pessoas foram presas, segundo balanço divulgado pela Polícia Civil.

Na sessão da Assembleia, deputados aprovaram o projeto em segundo turno e em redação final. Assim, o projeto segue agora para sanção do governador Beto Richa (PSDB), autor da proposta. O projeto de lei muda a fonte de pagamento de mais de 30 mil beneficiários para o Fundo Previdenciário. Com isso, o governo deixa de pagar sozinho essas aposentadorias e divide a conta com os próprios servidores, já que o fundo é composto por recursos do Executivo e do funcionalismo.