Por: Raphael Rocha Lopes | 31/10/2012

“Esses humanos que circulam / Pela cidade aí afora / Eu não aguento, eles querem me conquistar / Eu não aguento, eles querem me controlar / Querem me obrigar a ser do jeito que eles são / Cheios de certezas e vivendo de ilusão / Mas eu não sou nem quero ser igual a quem me diz / Que sendo igual eu posso ser feliz”

A música acima, do Supla (o filho rockeiro dos políticos Martha e Eduardo Suplicy), quando ainda capitaneava a banda Tókyo, era uma espécie de hino de revolta dos adolescentes dos anos 80. Ouvi muito. Ouço ainda, para um pouco de desespero da minha filha e da minha namorada.

Contudo, a letra ainda não perdeu sua verdade. Muitas pessoas vivem do modo que acham que os outros pensam que elas deveriam viver. Prendem-se, e não é raro, ao espelho dos outros. Bastante real aquele pensamento ou ditado que diz que existem quatro eus. O eu que eu acho que sou. O eu que os outros acham que sou. O eu que eu acho que os outros acham que sou. E o eu verdadeiro. Este muitas vezes difícil de encontrar.

Estamos viciados pelo que os outros pensam de nós. Pela moda ou pelos modismos, o que é pior. Pelo eterno medo de passar ridículo, mesmo quando o que queremos é apenas um pouco de diversão. Não, não estou pregando aqui a loucura total, a irresponsabilidade, ou qualquer devaneio desta natureza. Mas acredito piamente que seríamos (e me incluo nessa) muito mais vivos se pensássemos mais na nossa felicidade pura. Se nos despíssemos de conceitos e preconceitos. Se praticássemos um pouco mais do hedonismo.

Por que as crianças nos divertem? Porque são simples, são honestas, são sinceras. Porque quando não gostam, não gostam e pronto. Quando gostam, gostam de verdade. Aí vêm os adultos e dizem: “Agradece, filhinho, o presente que você ganhou” (uma meia). “Dá um beijo na titia, filhinha” (e a tia com aquele cheiro de perfume ardido). E lá se vai o que tem de mais precioso na criança: a espontaneidade.
“Ah, Raphael, mas temos que prepará-las para a vida, a não serem mal educadas, a agradecerem um presente bem intencionado.” Não nego nada disso, entretanto acredito que haja outras maneiras. E a principal forma é o exemplo que os pais, ou qualquer adulto, podem dar.

Minha filha já passou há muito da fase de brincar comigo no parquinho, mas as boas lembranças ficaram. Pensei, porém, no texto de hoje depois de pular na grama com o Joaquim, filho de um dos meus sócios, e ouvir as risadas e os comentários sobre frio e quente dele (do Joaquim, não do sócio). Depois de brincar no chão com minha sobrinha Izabele e ouví-la imitando as gargalhadas dos adultos com seus olhos mais que risonhos. Depois de jogar dominó gigante com meu afilhado Mateus também sentados nós dois no chão e vendo a alegria dele em conseguir completar as jogadas da maneira certa a ganhar as partidas. Todos com menos de três anos. Nessas horas até eu.

Só fico com medo desses humanos que circulam pela cidade aí afora, cheios de certeza e vivendo de ilusão. Muitas vezes esquecendo o quanto é bom serem felizes…