Por: Ricardo Daniel Treis | 8 anos atrás

Bum: pedintes enrolados. Até tolero pedintes mentirosos, mas concordaria com o sumiço daqueles camaradas que aparecem com o espírito de Monteiro Lobato encarnado, sabe? Fulanos prontos pra proporcionar os 20 minutos mais longos do seu dia, floreando uma longa história fajuta sobre como não têm dinheiro pra voltar pra Tifa da Arapuca, onde seus noventa e sete filhos esperam doentes, cada um com um cobreiro ou verminose diferente. Daí ele conta como não pagaram ele na obra, e que ele nunca mais vai trabalhar lá. Conta como quer voltar pra fazenda do pai rico sei-lá-onde no Acre, e então emenda política, dizendo que o governo tá ferrando todo mundo, e que tá com a cara toda esfolada porque apanhou de graça da polícia esses dias. Cristo, dá um tempo, marca de poste dá pra ver de longe, ainda mais quando ficou carimbado “Celesc” na têmpora.

São dez da noite, o cara tá alí com oito bilhetes de jogo-do-bicho no bolso da camisa, uma mancha de urina na calça, a palavra “vadiozão” escrita na testa e ainda finge que tá tudo bem, que é um operário e ninguém vai perceber a mentira. Pior que eu ainda sou daqueles que fica embaraçado com a vergonha alheia e finge que acredita. Fico falando “aham, aham” enquanto ouço a sinfonia de violinos arranhando uma música triste de fundo pro causo daquele cidadão, que ainda tem a cara-de-pau de pedir “dôrreal e oitenta” a título de EMPRESTADOS, jurando que vai devolver.


E da visão de mercado
Fica rico o cara que lançar a cachaça marca “Passagem”. Vai ser a favorita entre os pedintes que não querem peso na consciência quanto ao destino da esmola. O lançamento abrirá uma nova dimensão para a dobradinha álcool / sinceridade.


E da vitória do pedinte
Além do jogo moral “Ah, que monstro eu sou por não dar esmola pra um pai de família voltar pra casa”, R$ 3 é uma merreca considerando voltar pro carro e ver que não riscaram um pênis gigante no capô com um tijolo.