Por: João Marcos | 26/01/2015

Mais conhecida por invadir sites ou perfis de órgãos governamentais e de empresas na internet, o grupo de hackers Anonymous agora está organizando uma operação para limpar a web e, principalmente, a chamada deep web — aquela que não pode ser acessada por buscadores como o Google e preza pelo anonimato — de redes de pedófilos. Batizada de “Operation Death Eaters” (Operação comensais da morte, em português), inspirada no nome dos aliados do bruxo Voldemort, da série de livros “Harry Potter”, a iniciativa visa montar uma base de dados global com informações sobre usuários pedófilos.

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De acordo com Heather Marsh, uma ciberativista que está ajudando a coordenar a operação, e que se descreve como uma “antiga amiga” dos Anonymous, a nova iniciativa visa mostrar a explosão de material com imagens de abusos de menores que vem invadindo a internet. Acredita-se que milhões de imagens de violências contra crianças circulem on-line, apesar dos casos não conseguirem reverberar na mídia de massa.

Dados do Centro Nacional para o Desaparecimento e a Exploração de Crianças em Washington, que refletem apenas uma fração do total, identificam quase 8 mil crianças vítimas de abusos na internet desde 2002, assim como 3,2 milhões de imagens pornográficas infantis, com aproximadamente cerca de 40 mil novas fotos do tipo sendo colocadas on-line a cada semana.

A nova operação do Anonymous também surge dias após a revelação de documentos secretos governamentais britânicos, encontrados no Arquivo Nacional, e que detalham comportamentos sexuais “não naturais” que aconteciam em Westminster há 35 anos. Os casos teriam sido acobertados pela baronesa Thatcher na década de 1980, quando ocupava o cargo de primeira-ministra, e por membros da família real.

— A premissa da operação também é expor o alto nível de cumplicidade, obstrução da justiça e acobertamento de uma indústria sádica a fim de mostrar a necessidade de investigações independentes — afirmou Marsh ao site do jornal “The Telegraph”.

Assim, de acordo com ela, mais do que encontrar criminosos, a base de dados pretendida pelos hackers tem como objetivo mostrar redes de influências, e como casos conhecidos de abuso sexual infantil são distribuídos por essas redes.

A escala do problema já foi reconhecida pelo primeiro-ministro britânico, David Cameronc no ano passado, quando ele anunciou a iniciativa “We Protect” (Nós protegemos), incluindo novos crimes relacionados à solicitação de fotos de abusos de crianças, e a criação de uma nova unidade para investigar as redes digitais usadas por pedófilos para a troca desse tipo de material.

A base de dados proposta pelo Anonymous será hospedada no repositório on-line GitHub, e promete reunir casos globais de pedofilia, cruzando referências sobre eles com o objetivo de fechar a indústria de abuso sexual infantil, “desmantelando a sua estrutura de poder que a mantém” e “educando para a criação de uma mudança cultural”.

De com acordo com o detetive Cecil Arnold, membro da força-tarefa Texas Internet Crimes Against Children (ICAC, na sigla em inglês), nos EUA, as autoridades americanas estimam que existam cerca de sete milhões de imagens identificadas de abuso infantil na internet e, dessas, apenas 40% foram devidamente rastreadas.

Ainda mais perturbador, segundo Arnold, é o fato de que cerca de 60% das novas imagens recentemente analisadas pela ICAC mostram crianças menores de 10 anos.

Pedófilos tendem a compartilhar imagens de abuso por meio redes de troca de arquivos que permitem que duas pessoas troquem vídeos ou fotos por meio de uma rede criptografada, de modo que usuários mais sofisticados possam evitar a sua identificação.

Segundo Arnold, a maioria das prisões efetuadas nesses casos são de usuários menos sofisticados, que começaram a consumir pornografia convencional, mas acabaram passando procurar por conteúdos mais pesados, incluindo pornografia infantil.

— Eles começam procurando por pornografia convencional, e então progridem até o sadomasoquismo, tortura, e, antes que percebam, dessensibilizaram a sua parte do cérebro que filtra o que esse tipo de conteúdo como sendo simplesmente errado — afirmou ele ao “The Telegraph”.

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