Por: Isah Sanson | 6 anos atrás

Ano novo, vida nova. É o que mais se ouve por aí quando giram os números do ano no calendário. Menos do que isso só as promessas. E, ainda assim, uma coisa tem a ver com a outra.

Ano novo, vida nova. Comportamentos novos, metas novas, disposições novas, trabalhos novos, namoradas novas, carros novos, mesmo que as propostas sejam velhas, as mesmas de todos os anos.

Creio que poucos são os que conseguem cumprir suas novas metas. Em primeiro lugar, devem ser projetos viáveis. Nada miraculoso se consegue da noite para o dia, ainda que esse período seja de um ano. E, além de viável, deve ser realmente motivador. Meta por meta, só para dizer que tem uma, no fundo de nada serve.

Por outro lado, há aqueles que simplesmente pulam as tais sete ondas sem saber exatamente por quê. Comem uvas, amarram fitinha amarela no pulso, usam roupas brancas novas, esfregam a nota de dinheiro mais alta nas mãos, ceiam lentilha com carne de porco, entre diversas outras crendices ou superstições, sem saber os motivos. Apenas porque os outros fazem. Porque todos fazem. E também há, ainda que em menor número, aqueles que não fazem nada porque “a vida continua assim mesmo; nada muda”, sem esperanças ou simplesmente por acomodação.

Os acomodados e os que fazem somente porque todo mundo faz são, na minha opinião, os piores.
Falo disso tudo porque um dos livros que li nessas minhas curtas férias foi “O homem duplicado” do saudoso Nobel da literatura português José Saramago.

Antes de viajar para a praia separei alguns títulos e este estava lá, meio esquecido, esperando sua vez, que finalmente chegou.

Não vou falar do livro. Deixarei esse prazer para os leitores. Quero trazer apenas duas breves passagens que penso estar de acordo com nossa conversa de hoje.

Estava uma noite Tertuliano Máximo Afonso, o personagem principal do livro, indeciso entre corrigir os trabalhos de História de seus alunos de ensino secundário, continuar a leitura de uma obra sobre antigas civilizações mesopotâmicas ou ver um filme indicado por um professor da escola onde trabalhava chamado “Ganhou quem porfia mata caça”. Optou por decidir sua sina através de uma cantiga infantil ao estilo “sorvete colorê, o escolhido foi você”. Venceu o filme.

E pensou Tertuliano (vou deixar a pontuação como no original, típica de Saramago, assim como a grafia): “está visto que o que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, nunca jogues as pêras com o destino, que ele come as maduras e dá-te as verdes. É o que geralmente se diz, e, porque se diz geralmente, aceitamos a sentença sem mais discussão, quando o nosso dever de gente livre seria questionar energicamente um destino despótico que determinou, sabe-se lá com que maliciosas intenções, que a pêra verde é o filme, e não os exercícios ou o livro”.

Os acomodados e os que vão na onda dos outros são os que justificam seus dissabores e agruras como obra do destino. Sempre perdem as peras maduras para o destino, amargando com as verdes, que nunca podem ser aproveitadas agora sem um gostinho ruim na boca.

Isso me leva a outra passagem do livro: “Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente”.

Que 2012 seja o ano em que seremos os donos dos nossos destinos e que tenhamos a coragem de encarar o que vier pela frente. Seja o que for!

Por RAPHAEL ROCHA LOPES