Por: Ricardo Daniel Treis | 3 anos atrás

O Tonho do Diabo foi um cara famoso no norte catarinense. Tinha essa alcunha por causa do trocadilho com a sua profissão. Atuava como advogado e atendia gente de toda espécie.

Dizem que o Tonho nunca teve muito dinheiro. Porém, patrimônio ele tinha. Pagava tudo com joias ou com ouro. Diziam ser os pagamentos que recebia dos seus clientes que moravam no presídio. Mas isto nunca foi comprovado.

Certa vez, o Tonho que era um exímio estrategista em defesa e nunca perdia no tribunal, teve que bolar um plano em causa própria. Começou quando um amigo de décadas se aprochegou falando de mansinho: “Tonho, precisamos conversar!”. Esse verbete “conversar” tem um peso muito maior do que as duas páginas de explicação do meu dicionário analógico. O efeito psicológico desta palavra não tem definição.

– Tonho, precisamos conversar!

– Diga, “home”!

– Aqui não é lugar. Vamos até o café.

– “Simbora!”.

O semblante do Gledson era fechado. O Tonho chegou a pensar que seria algum problema na família do sujeito, que precisaria de alguma ajuda. Quando acomodados, a conversa começou:

– Tonho, antes de te chamar para conversar, eu pensei muito. Não foi fácil tomar essa decisão e espero que nossa amizade continue a mesma.

– Mas diga “home”!

– Já faz um tempo que a tua mulher fica jogando charme para cima de mim.

– A Matilde?

– Sim, Tonho. Eu sempre me fiz de bobo, só que agora, já vi gente dizendo que ela também tá dando mole para outros caras, aí resolvi te falar.

– PQP, depois de tanto tempo, ela me faz uma dessa!

– Tonho, vai com calma, às vezes é só questão de conversar.

O advogado, já calejado da vida, montou um plano na hora:

– Gledson, vamos fazer o seguinte: você vai dar corda da próxima vez que ela ficar se insinuando.

– Como assim, Tonho?!

– Isso mesmo! Quando ela der sinal, você vai adiante. Marca um encontro e fazemos um flagrante. Mas tem que ser lá em casa, que aí a chance dela sair com uma mão na frente e outra atrás é maior. Aí não tem juiz que vai querer dar pensão para uma mulher que levou amante para a própria cama. Essa vida de academia e shopping vai acabar.

Não demorou muito para o Gledson ligar:

– Tonho, não foi muito fácil, mas combinei para amanhã, lá na tua casa. Ela queria ir num motel. Desculpa amigo, fico chateado com tudo isso.

– Cara, não tem mais o que fazer. Me diga a hora certinho e dá um jeito de me mandar um sinal quando já estiverem sem roupas, diz que vai colocar o telefone em modo avião e me dá um toque. Aí não tem erro pro flagrante. O juiz vai ficar sensibilizado.

– Combinado!

No dia seguinte, o Tonho estava de prontidão, com um amigo detetive, encarregado de fotografar tudo e outro policial, que serviria de testemunha, pois declaração de militar tem “mais peso”. Era tanta raiva que o Tonho sentia, que nem pensava no constrangimento que estava por vir.

O carro do Gledson apontou no portão e a Matilde abriu a garagem. Agora faltava só o sinal.

Já eram passados uns 50 minutos e nada. Aquele tempo era uma eternidade para um homem naquela situação. Já tinha repetido algumas vezes para os dois comparsas: “Ainda bem que eu não tenho arma, senão ia fazer uma bobagem!”.

No fundo daquela raiva, havia um sentimento ainda forte pela Matilde. Chegou a pensar, “não vem sinal lá de dentro porque deve ser uma brincadeira que a ‘Tidinha’ está fazendo. Ou, talvez, até o Gledson seja cúmplice disso”.

Não suportou a pressão e decidiu que ia entrar sozinho. O amigos tentaram convencê-lo a esperar o sinal. Recusou-se e partiu.

Quando entrou na casa, ouviu os gemidos dela, que não costumava “dar feedback” na cama. “Parece uma boneca inflável quando transa”, teria ele reclamado certa vez com o próprio Gledson, durante uma bebedeira. Deu mais uns passos, adentrou ao quarto e lá estavam os dois “nas vias de fato”.

Não houve batalha judicial, Tidinha abriu mão e sumiu. A amizade entre os dois amigos ficou comprometida. Não pense que tenha sido o Tonho chateado com o amigo fura olho. Foi o Gledson que ficou inconformado com o traído: “Oh Tonho! Tu já tinha decidido que não ia ficar com a Tidinha, o que custava tu deixar eu acabar o serviço, eu sonhei com isso desde aquele dia que me a apresentasse!”.

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Marcelo Lamas escreve sobre o cotidiano há 20 anos. Autor de “Indesmentíveis” (Camus Ed. 2015), “Arrumadinhas” e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.

marcelolamas@globo.com