Por: Sistema Por Acaso | 8 anos atrás

marcelo lamas

Nesta época aparecem os álbuns da copa. E toda aquela turma que passa a amar o esporte bretão por um mês, a cada quatro anos. Neste caso, mais patriotas do que torcedores. Não é o meu caso.

Sempre frequentei os estádios de futebol, sem distinção de divisões, como torcedor, como mascote e como jogador.

Como torcedor aprendi que há três formas de assistir a uma partida. A primeira é vendo somente a bola, na qual muitos só vêem os gols. A outra é vendo “o jogo”, nos detalhes como o esquema dos dois times e os canhotos do time adversário.

E tem a maneira especial, aquela em que vemos o jogo com o coração em cima da bola, enxergamos somente o nosso time jogar. Quando o jogo termina não lembramos sequer o nome do goleiro adversário, mesmo que ele tenha defendido três pênaltis. Eu sou assim.

Como mascote, percebi a energia que vem das arquibancadas quando o time entra num estádio lotado. Por isso que treino é treino e jogo é jogo, e alguns jogadores amarelam quando mudam de time, de ambiente.

O álbum da minha família tem uma série de figurinhas de futebol, na foto acima está o meu avô, o Chico “Lama”, na década de 1940 – o primeiro à direita, sentado. Na época, o futebol era diferente, a foto mostra o esquema de jogo, dois zagueiros, três meio-campistas e cinco atacantes.

Certa vez, num treino do Farroupilha do RS, o atacante adversário avançou para a linha de fundo e eu cheguei na cobertura, com força desproporcional e joguei a bola por cima da arquibancada, para fora do estádio. O treinador parou o treino e me deu um sermão, dizendo que eu não deveria ter chegado com tanto entusiasmo, que poderia ter machucado o colega e ordenou que eu fosse buscar a bola.

Eu saí do gramado, do portão do complexo esportivo e entrei no terreno ao lado, onde havia um ferro-velho – eu tinha vacina anti-tetânica. Demorou, mas consegui achar a bola. Quando voltei, estavam todos sentados num círculo. O professor de bigode branco me indagou:

– Marcelo! Sabes por que todos aqui estão sentados?

Acabrunhado, sacudi a cabeça, sinalizando que “não”. O velho, completou:

– Todos estão te esperando, porque tu fazes parte deste time e se tu cometesses um erro, o erro é de todo mundo.

E foi a única vez que eu vi uma ação verdadeiramente em equipe.

O futebol não é somente um jogo.

Marcelo Lamas, escritor e zagueiro do Apagão Futebol Clube.
marcelolamas@globo.com