Por: Cláudio Costa | 2 anos atrás

Há quatro meses, a estudante Catharia Doria, 17, foi chamada de “gostosa” na rua, em São Paulo, por um homem que disse ia “levá-­la para casa”. Não teve coragem de responder ao assédio, mas teve uma ideia para ajudar outras mulheres que enfrentam situações como essa diariamente.

Assim nasceu o Sai Pra Lá, um aplicativo que permite registrar o tipo de assédio (verbal, físico, com assovios etc.) e o endereço aproximado de onde ocorreu. A ideia, segundo a jovem, é mapear as ocorrências para facilitar o combate ao problema. “Como ninguém nunca realmente denuncia o assédio, é como se não tivesse acontecido, então não conseguimos saber quantas vezes isso já ocorreu”, diz.

Lançado na terça­-feira (3), a ferramenta, disponível para os sistemas operacionais iOS e Android, registrou 300 registros de assédio e 3.862 curtidas em sua página no Facebook. Em parte, por causa do “timing” perfeito: logo depois da redação do Enem, cujo tema era violência contra a mulher, da campanha #primeiroassédio, pela qual mulheres relataram nas redes sociais a primeira vez que sofreram assédio sexual, e de uma manifestação em São Paulo que recebeu mais de 5.000 pessoas contra o projeto de lei 5069/13, que dificulta o aborto legal e restringe a venda de medicamentos abortivos no país.

Para chegar a esse resultado, entretanto, Catharina optou por desistir da viagem de formatura que seu colégio vai realizar no ano que vem para Cancun, no México. A decisão foi tomada para pagar o desenvolvedor e a designer envolvidos no projeto, já que a adolescente não entende “nada de html nem de computação”. Sua mãe, Silvia Brenner, 51, conta que ela lhe pediu para usar o dinheiro da viagem para viabilizar o Sai Pra Lá. “Ela me disse que faria isso sem choro nem vela, sem arrependimentos. Como é que eu vou impedir alguém que está disposta a trocar a viagem de formatura?”, diz Silvia.

Quatro meses depois do assédio na rua e vários pagamentos parcelados depois, o app foi lançado. Catharina diz ter ficado impressionada com a recepção positiva. “Sou feminista e acompanhava o tema em páginas nas redes sociais, mas há quatro meses esse assunto não estava em pauta”, diz.

Fonte: Folha