Por: Gabriela Bubniak | 3 meses atrás

Dançarino, escritor, mergulhador, cantor, desenhista, atleta, sommelier, vendedor de coco na praia… Se nada desse certo, qual seria o seu “plano B” na vida profissional? Pense no que você mais gostaria de fazer caso pudesse mudar de profissão hoje mesmo. Qual seria a sua escolha?

Por mais contente que esteja no que faz hoje, há sempre aquele outro trabalho que desperta uma espécie de suspiro dentro de cada um. Foi desses momentos de repensar a vida que nasceu a série “Inspiração profissional”, aqui no Por Acaso. E trazemos a vocês, com muito amor, a terceira edição.

Desta vez, nós vamos descobrir como é a vida de um adestrador de cães! E para falar sobre o assunto, buscamos dois profissionais diferentes da área: o adestrador Alex Picarella, que trabalha com a reabilitação de cachorros há mais de 20 anos; e o policial Militar Marcos Paulo Cattoni, que adestra cães da Polícia Militar de Jaraguá do Sul desde 2011, quando ajudou a implantar a nova modalidade de policiamento na cidade.

E a gente já adianta uma coisa: os dois são completamente apaixonados pelo que fazem e nos contaram tim-tim por tim-tim como é essa rotina, das coisas mais legais até os perrengues.

As coisas mais bacanas de ser um adestrador

1 – Convívio e vínculo com os animais
Gostar de animais é o principal requisito para quem trabalha com a cinotécnica (técnica de treino de cães), e acaba sendo uma das partes mais prazerosas da profissão.

Alex: “O bacana de trabalhar com cães é o vínculo que a gente acaba tendo com os animais. Como acontece o convívio frequente, criamos um apego e carinho pelos animais. O nome de cada um fica guardado na memória, e todo dia é um aprendizado novo, afinal eles são únicos e diferentes”, conta.

Cattoni: “O cão policial tem uma rotina diferente, e treina diariamente em períodos fracionados. Porém ele vive junto de seu condutor. Mesmo nas horas de folga do policial, o cão vai junto com ele para sua casa relaxar. Eles têm a vida em liberdade que tanto gostam, tornando-os tranquilos para o próximo trabalho, diferente dos animais que ficam em canis”, aponta.

Policial Cattoni com o colega canino Eros, se preparando para mais um dia de treinos. (Foto: Renan Reitz/Por Acaso)

2 – Orgulho pelos resultados alcançados
Nada melhor do que terminar um trabalho, olhar para ele e sentir orgulho da evolução e do resultado final, não é? Pois é exatamente assim que um adestrador se sente, vendo a evolução do cachorro durante o processo e também no final dele.

Alex: “É muito gratificante. Um exemplo é treinar um cão de faro, e ele atingir êxito nas buscas. É ali que a gente vê que o nosso empenho valeu a pena, e está servindo para ajudar as pessoas”, comenta.

Cattoni: “É muito bom perceber a gratidão das pessoas após o resultado positivo na resolução de um problema em que o binômio homem/cão foram peças fundamentais no sucesso. É neste momento que vemos na prática todo o resultado do esforço no treinamento do cão”, diz.

3 – Conseguir superar as dificuldades
Uma das maiores conquistas de um adestrador, que trabalha com reabilitação de cães agressivos, é poder ver a mudança completa do cão. “Cheguei a lidar com animais que atacaram os próprios donos. Apesar de ser um trabalho tenso e demorado, é muito prazeroso, pois sei que estou ajudando a transformar completamente a vida do cão e da família”, complementa Alex.

Foto: Divulgação

As coisas mais difíceis de ser um adestrador

1 – Lidar com as pessoas
Pode parecer meio estranho este tópico, mas em algumas situações, a dificuldade do relacionamento não é com o animal, e sim com as pessoas. “Muita gente acaba resistindo aos nossos comandos, por acharem que aquilo não é bom para o cão. E outros acabam humanizando demais os animais; visto de forma profissional existem certos exageros e entramos num processo para fazê-los entender isso”, conta o adestrador Alex.

Ele ainda acrescenta que é necessário que os donos dos pets tenham responsabilidade e assumam os treinos como foi ensinado pelo adestrador, assim o cão evolui com maior facilidade. 

Adestrador Alex com um dos cães que atualmente está trabalhando o comportamento. (Foto: Arquivo Pessoal)

2 – Não saber o que vai enfrentar no dia a dia
A rotina de um adestrador é uma caixinha de surpresas, porque é difícil prever o que pode acontecer quando se trata de comportamento animal. Claro que todo profissional passa por perrengues, e no adestramento um deles é lidar com os cães agressivos. 

O Alex, por exemplo, já passou por alguns acidentes desses durante os trabalhos de reabilitação de cachorros. Mas ele leva isso como aqueles percalços da vida, afinal em qual profissão acidentes não acontecem? “A história é longa, mas esse trabalho é gratificante, hoje não me vejo fazendo nada diferente”, analisa.

O dia a dia também é um desafio para o policial Cattoni, afinal ele também nunca sabe o que terá que enfrentar com o companheiro Eros. “É preciso ter calma e sabedoria para resolver todos os impasses, e voltar para casa com a consciência de termos feito o nosso melhor”, completa o policial.

Quanto tempo demora para adestrar um cão?

Assim como para nós é muito relativo o tempo que leva para nos adaptarmos a mudanças, para os cãezinhos também. Na verdade, tudo vai depender de como cada um vai reagir aos treinos. De acordo com o adestrador Alex, um cão equilibrado e mais sociável, que precisa somente de um treinamento de obediência básica, é necessário uma média de 40 a 50 aulas.

Outros tipos de treinamento, como guarda e proteção de residências, e recusa de alimentos envenenados, por exemplo, podem levar ainda mais tempo. “Vai depender muito do que os donos querem. Quanto mais requisitos, mais tipos de treinamentos serão feitos e, consequentemente, mais tempo vai demorar”, explica.

Foto: Divulgação/Ilustrativa

Já um cão policial, assim como cães de esporte, começa a treinar desde filhote, e esse treinamento nunca para. Segundo o policial Cattoni, com o passar do tempo o cão já pode estagiar na PM em algumas situações, e entre seus 18 e 24 meses de vida já está apto a atuar em determinadas ocorrências. “E isso ainda vai depender da raça e também do avanço no treinamento”, conclui.

Na foto o cão Eros com a pequena Helisa. A imagem demonstra a confiança e o carinho do cão pelas crianças. (Foto: Arquivo Pessoal/PM)

E como faz para ser um adestrador?

É necessário se preparar por meio de cursos de capacitação, e não dispensar seminários com pessoas experientes na área. Além disso, é sempre recomendável buscar por instituições referência que serão capazes de contribuir para o aprendizado do profissional.

O perfil de um adestrador de cães deve ser bem específico, tendo como pré-requisitos gostar de lidar com animais, ser organizado, destemido, disciplinado, paciente e perseverante, pois o trabalho é difícil e nem sempre o resultado será imediato.

Foto: Renan Reitz/Por Acaso

Um adestrador de cães pode trabalhar como auxiliar de veterinário ou, se preferir, de forma particular. Também em áreas específicas, como é o caso do adestrador de cães policiais e bombeiros.

Conheça mais sobre os profissionais entrevistados

Não é à toa que os nossos personagens jaraguaenses escolheram esta profissão, pois eles têm exatamente as características de um bom adestrador, principalmente o amor pelos cães. Bora conhecer um pouquinho da trajetória deles?

Alex Picarella: O adestramento surgiu para o Alex quase que por acaso. Nos anos de 1990, quando ainda morava em uma cidade da Grande São Paulo, ele tinha um vizinho chamado Jorge Alejandro Novoa. Ele trabalhava com cães, e foi um dos pioneiros na criação da raça rottweiller no Brasil. Tinha um canil e ainda era um dos profissionais mais requisitados para trabalhar com cães de segurança. Até que, em 1996, Alex foi chamado para ajudar com um trabalho de Jorge, quando se encantou pela profissão.

Alex com roupa especial para treinamento de cães. (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre trabalhos em outras áreas e o adestramento, em 2002 ele decidiu se dedicar somente à profissão. Fez diversos cursos, e participou de inúmeros seminários. Um dos mais importantes foi com Jason Purgason, dos Estados Unidos. Ele foi o responsável por supervisionar as equipes da Swat nas buscas e salvamento das pessoas soterradas após a tragédia do World Trade Center, as torres gêmeas.

Atualmente Alex mora aqui em Jaraguá e faz trabalhos de adestramento em toda a região.

Marcos Paulo Cattoni: O amor pelos cães e a vocação para lidar com eles vem desde a infância, com o incentivo do pai. Quando ingressou na Polícia Militar de Santa Catarina, em 2004, ele já tinha a vontade de ser um cinotécnico, mas a oportunidade ainda não havia surgido.

Em 2011, com o apoio do comandante do Batalhão, foi implantada a nova modalidade de policiamento na cidade: o K9.

O canil setorial do 14º Batalhão de Polícia Militar de Jaraguá começou com dois policiais e dois cães Zeus – o primeiro cão de Cattoni, que foi morto durante uma ocorrência – e Thor que hoje está inativo.

Foto: Renan Reitz/Por Acaso

Com o apoio do comando, Cattoni começou a se profissionalizar na área. Participou de vários seminários e também estágios em outras unidades de canis da PM pelo Brasil, e ainda fez curso de auxiliar veterinário em 2012, além de cursos internacionais.

Atualmente ele continua atuando pelo canil da PM, com o cão Eros nos trabalhos de busca, resgate e proteção. Trabalha com a instrução de grupos policiais especializados, e também tem um centro de treinamento, o Vale dos Cães, onde presta serviço de adestramento e reabilitação de cães.

E esse aí é o Eros, pessoal. Uma fofura, né? Ele é treinado pelo Cattoni desde filhotinho e hoje é uma das peças chave para o policiamento aqui na cidade. (Foto: Renan Reitz/Por Acaso)

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