Por: Sistema Por Acaso | 8 anos atrás

saudade

Tomo um vinho barato e, assim como o poeta, fico comovida como o diabo. É verão. Por mais que eu tente ser razoável e olhar o manto das noites de janeiro como uma folha a ser destacada do calendário, o mês tem a capacidade de me deixar absorta. É como se fosse preciso prestar contas comigo mesma, antes de seguir adiante e sentir o calor contrastante que me espera naquela cama vazia. Dou outro gole e, além de ficar sacudida, sinto saudade. Olho pela janela e vejo a chuva. O cenário é assim: eu, uma cabana no meio da mata e o vento entre as árvores magras, fazendo um rumor afiado. Não há telefone (que mata as horas quietas), não há televisão e o aparelho celular procura, em vão, aquilo que o mostrador chama de um  ”sinal”. Estou sozinha, pequena, e sinto saudade.
Entre as palavras que eu conheço, não há nenhuma que me entristeça tanto quanto ”saudade”. Por isso, talvez não há língua do estrangeiro capaz da perfeita tradução . O verbo ”estrañar”, do espanhol, revela um pedaço do vazio e da sensação de algo singular ou espantoso, mas não esgota o sentido. Em inglês, alguém pode ficar ”homesick”, mas só se estiver longe de casa. Ou precisa sussurrar um ”I miss you”, expressão meio estreita, distante do imaginário poético. Na língua portuguesa, penso em saudade vejo a ausência, casais separados por quilômetros, a privação daquilo que não está mais ao nosso alcance. A saudade é a arte do intocável. E ficar só amplifica esse sentimento.
Tento ficar equilibrada e não pensar mais na saudade. Mas, quando imagino equilíbrio, logo me vem na mente uma daquelas cenas circenses da infância: o clichê movimentando as varetas que suportam pratos, os irmãos russos de roupas colantes, uns nos ombros dos outros, formando assim uma pirâmide humana; a garota de pescoço nu atravessando a corda bamba. Na prática circense, estar equilibrada envolve sempre uma situação de risco. É isso. É preciso equilíbrio para se livrar da saudade, mas ao mesmo tempo é arriscado. Uma distração e pronto: derrubamos os pratos, desabamos dos ombros dos irmãs russos, caímos da corda bamba. Ou chorramos, e tentamos compensar a nossa incapacidade de resistir.

Saudade, saudade, saudade. Chega a doer, de verdade.