Por: Gabriela Bubniak | 01/06/2017

Tá saindo do forno mais um artigo especial daqueles pra quem transpira curiosidade. Desta vez, a nossa série sobre a origem dos nomes dos bairros entra no critério “diferentão”, porque se tem um bairro com nome difícil este é o “Czerniewicz”, não é? E se você já perguntou o que significa essa palavra, este é o lugar certo! 😉

O Czerniewicz fica localizado entre os bairros Centro, Baependi e o Amizade. Abriga importantes edificações, como a Sociedade Cultura Artística (Scar), o Centro Empresarial (Acijs), o Hospital e Maternidade Jaraguá, o Pama 1, a empresa Viação Canarinho e o Sesc. O bairro também foi casa do extinto Café Sasse, e que hoje deixa saudades. 

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Olha a nossa linda Scar! <3 Foto: Arquivo/Por Acaso

Junto com o Baependi, é o bairro mais antigo da cidade. Em 2014 estudo realizado pelo Instituto Jourdan de Planejamento apontou que a população do Czerniewicz era de 3.415 habitantes – contra 10.094 moradores na Ilha da Figueira, o mais populoso então.

Mas o nome desse bairro é tão incomum que tem gente que até hoje não faz a mínima ideia de como se pronuncia corretamente. E como seria mesmo?

Quem nos ajudou a descobrir foi a historiadora e chefe do Arquivo Histórico, Silvia Kita. Ela explicou que a pronúncia não tem nada a ver com “Tchêrnevícz” ou “Qzerniêvics”, mas sim “Xerniêvicz”, porque em alemão as consoantes “C” e “Z” juntas têm o som de “X”.

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Como sente-se um turista ao entrar em Jaraguá? Kkkkkk


Leia também:
– A origem dos nomes dos bairros de Jaraguá do Sul: Ilha da Figueira
– A história do Café Sasse que hoje deixa gostinho de saudade nos jaraguaenses
– Antigamente em Jaraguá: a história e os bastidores da construção da Igreja Matriz São Sebastião

Bom, se a pronúncia é em alemão, quer dizer que o bairro teve colonizadores vindos da Alemanha, certo? Certíssimo, e eles eram a maioria. A palavra Czerniewicz é nada mais, nada menos do que um sobrenome, este de uma família tradicional alemã da época de 1900, que morava pelas região, a família de Jorge Czerniewicz (na época se escrevia Georg).

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Vista aérea do bairro. (Foto: Rafael Verch)

Mas quem foi Jorge?

Pode-se dizer, com segurança, que ele foi um dos caras mais importantes do início da história da cidade. Saiu de Berlim, na Alemanha, e veio para Joinville em 1884, viver num Brasil colônia. Os registros em Jaraguá do Sul começam por volta de 1900, e apontam que ele foi um dos primeiros grandes empreendedores da cidade.

Foi proprietário de um comércio da região – que antes pertencia a Victor Rossenberg -, uma casa comercial, junto de uma pousada e um restaurante. As estruturas ficavam localizadas próximas ao Rio Itapocu, próximo de onde hoje fica a Scar.

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Nessa fotografia é possível ver a casa comercial e a pousada de Jorge Czerniewicz, assim como a balsa e chalana. (Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul)

A casa chegou a hospedar pessoas ilustres como o embaixador alemão Barão von Wangenheim e o ex-ministro dos Transportes, Lauro Müller (catarinense de Itajaí).

Além disso, Jorge tinha uma chalana e balsa para a travessia do rio, utilizadas no transporte de pessoas da região. A balsa ficava no Rio Itapocu, mais ou menos no trecho de rio que dá na parte de trás da Celesc, e a entrada da Scar. O uso desses transportes terminou somente em 1913 quando foi inaugurada a ponte metálica. Essa ponte tem a ver com a história do pilar que hoje ainda existe no Itapocu. Lembra? 

Ponte Abdon Batista em sua primeira versão, foto tirada por volta de 1925

Ponte Abdon Batista em sua primeira versão, foto tirada por volta de 1925

E foi por ser uma pessoa de muita influência naquela região que o imigrante Jorge Czerniewicz hoje dá nome à principal rua do bairro. Mas antes disso, a extensão desta rua primeiramente era chamada de Estrada Itapocu Hansa e, mais tarde, uma parte dela, de Abdon Batista. Só em 1957, por lei municipal, recebeu o nome que tem hoje.

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Foto do bairro clicada por volta da década de 1950. Quem consegue ver lá no fundo a antiga estrutura da Igreja Matriz São Sebastião, no Centro? (Créditos: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul)

Mas a colonização do bairro iniciou mesmo por volta de 1890. No início viviam imigrantes de origem alemã, polonesa e italiana, principalmente. Por localizar-se à margem esquerda do Rio Itapocu, fazia parte do Domínio Dona Francisca e foi colonizado pela Companhia Colonizadora Hamburguesa que adquiriu as terras dotais da Princesa Dona Francisca (irmã de D. Pedro Segundo)

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Dá só uma olhada nesse mapinha super bacana e didático cedido pelo pessoal do Arquivo Histórico Eugênio Victor Schmöckel! Ele mostra como era dividida a cidade na época da colonização.

Terras cedidas ao Hospital São José

Se não bastasse a grande influência de Jorge Czerniewicz no comércio, ele também foi um dos responsáveis pela doação do terreno para a construção do primeiro hospital de Jaraguá do Sul. Em 1935, iniciou-se a construção civil do Hospital São José, sob o comando de Padre Alberto Jacob. A obra foi concluída em 22 de novembro de 1936.

Então, de 1936 a 1959, o Hospital e Maternidade São José ocupava o lugar onde hoje fica o Hospital Jaraguá, no morro do bairro, Rua Motoristas de Mil Novecentos e Trinta e Seis.

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Foto de arquivo retirada do blog “Histórico da Família Kanzler”. A imagem mostra a primeira estrutura do Hospital São José

Em setembro de 1960 a edificação foi vendida pra comunidade Evangélica Luterana – por um preço simbólico – e, depois de passar por reformas e ampliações, foi inaugurada a nova estrutura, em 27 de fevereiro de 1966 e passou a chamar-se Hospital e Maternidade Jaraguá, conhecido como o “Hospital do Morro”.

A histórica explosão da Fábrica de Pólvora

A história do bairro também guarda uma das maiores tragédias acontecidas na cidade: a explosão da fábrica de pólvora. No dia 6 de novembro de 1953, dez trabalhadores morreram após uma explosão da Fábrica de Pólvora Pernambuco Powder Factory.

A instalação da empresa desse ramo em Jaraguá foi iniciativa dos imigrantes alemães Fritz e Henrique Rappe, em 1912, em local conhecido como Tifa Rappe. Durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), a fábrica foi ocupada pelo 13º Batalhão de Caçadores. Nesta época, ocorreu a primeira explosão, que não deixou feridos, mas destruiu parte da estrutura. No dia 8 de setembro de 1941, outro incidente também ocorreu, mas sem feridos.

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Foto dos destroços após a explosão da fábrica. (Créditos: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul)

Com o fim da guerra, em 1918, os primeiros donos venderam a fábrica para Augusto Mielke, que transferiu a fábrica para a rua João Doubrawa.  Em 1926, a empresa foi vendida para Reinoldo Rau, que em 1939 a vendeu para um grande fabricante de pólvora com sede em Pernambuco. A S/A Pernambuco Powder Factory fabricava pólvora, explosivos de segurança e estopins da marca “Elephante”.

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E foi em 1953 que aconteceu a grande explosão que pôde ser ouvida na cidade inteira. (Foto: Divulgação)

Localizada na Rua João Doubrawa, no bairro Czerniewicz, na localidade conhecida hoje como Tifa da Pólvora, a fábrica era a terceira maior produtora de pólvora do Brasil. No espaço da fábrica, hoje há o loteamento Tifa da Pólvora. Veja o mapa:

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A fábrica de pólvora era realmente grande. O terreno todo abrange hoje uma área de ruas irregulares acima da Rua Pedro Floriano. – CLIQUE NA IMAGEM PARA ACESSAR A LOCALIZAÇÃO NO GOOGLE MAPS.

A tragédia ficou tão marcada na história da cidade, que o fato ganhou um monumento para homenagear as vítimas do acidente – veja aqui o artigo que fizemos a respeito.

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Anos depois da tragédia, foto aérea do bairro por volta da década de 1960, a foto foi clicada provavelmente do alto do Hospital do morro. Ao fundo dá pra ver a nova estrutura da Igreja Matriz, que tinha acabado de ser inaugurada! (Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul)

E aí, o que acharam da segunda edição dessa série linda? Nós adoramos saber o significado de mais um dos 37 bairros que temos por aqui. Aos apaixonados por história de plantão, se tiverem mais informações, curiosidades e fotos antigas do bairro, mandem pra gente para enriquecermos ainda mais esse artigo! O e-mail é contato@poracaso.com. Estamos abertos a sugestões de pautas também, hein? 🙂

Informações e imagens disponibilizadas pelo Arquivo Histórico Eugênio Victor Schmöckel. Fica nossa gratidão aqui, mais uma vez, pela parceria.

Foto de capa: Rafael Verch