Por: Ricardo Daniel Treis | 8 anos atrás

Ótima matéria publicada pelo JT, reproduzo aqui na íntegra. Só alterei a foto, botando uma mais, er, expressiva:

Russo Rede Globo Televisão sem glamour
Ao completar 80 anos, Russo é prova de que nem tudo na TV tem peso de ouro

Nos estúdios das extintas emissoras Continental, Excelsior e Tupi foram poucos os microfones que não passaram por suas mãos. Ainda criança, Russo já dividia a vida de trapezista de circo, na qual perdeu todos os dentes em um espetáculo que fez com 14 anos, com a de ‘farrista’ na TV. Em 1965, Antônio Pedro de Souza, o famoso contrarregra apelidado Russo, à convite de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, saiu do anonimato e virou um animador de plateia de destaque na Globo.

O homem que trabalhou 16 anos com Faustão, antes de ser afastado de sua atração, há quatro anos, testemunhou discretamente a história da TV no país. Aos 80 anos, 40 de contratado da Globo, revela um lado que nada tem a ver com o glamour e a dinheirama que, em geral, ganham famosos de grande exposição pública.

Apesar da idade, Russo trabalha muito, mais precisamente na produção de três programas: TV Xuxa, Estrelas e Caldeirão do Huck. A folga só é tirada aos sábados. Seu salário: cerca de R$ 2 mil ao mês. Com mais “alguns trocados” da aposentadoria, sustenta cinco filhos e vive em Engenho da Rainha, periferia do Rio.

Luciano Huck, apresentador mais próximo do contrarregra, é quem paga seu aluguel. “Eu não conheço promoção, mas só Deus sabe se eu vou parar”, diz Russo.

Em setembro, Russo foi assaltado e atropelado. Ficou dois meses longe da Globo. No período, visitou Angélica e Huck. “Eu não posso ficar muito tempo longe porque faço diferença.”

Filme, que filme?

O ‘diferencial’ do profissional quase convenceu o diretor de Alô Alô Terezinha, Nelson Hoineff, a construir o filme de Chacrinha a partir de suas memórias. “Ele é incrível, mas para entrevistá-lo marcamos quatro vezes. Ele está com uma idade avançada. Isso não facilitaria nossa vida.”

Russo desdenha de sua participação no filme. “Eu nem assisti ainda, mas também não estou ganhando nada.” O aposentado diz que não foi avisado pela produção do longa de que sua imagem seria usada. “Chegaram na minha casa e fizeram eu assinar um negócio de imagem. Mas tudo bem, a minha vida na Globo continua.”

Apesar das dificuldades na emissora, ele diz que sempre recusa convites da concorrência. “Não estou disposto a mudar de canal e ter de conquistar tudo de novo. Fiz tudo na Globo.”

O ‘tudo’ de Russo teve início 1965, quando Chacrinha o escalou para ser palhaço no Cassino do Chacrinha, no ar de 1950 a 1980. “A minha boca sem dente chamou a atenção dele”, brinca. Na performance, arremessava bacalhau e grãos de feijão na plateia. O sorriso largo no rosto vinha com a entrega do famoso abacaxi. “O Chacrinha falava que ele era um diferencial no programa”, diz Florinda Barbosa, viúva do Velho Guerreiro. Em 1970, foi registrado e fez pontas em atrações de Chico Anysio. “Eu adorava fazer piada sobre ele. É um grande homem, pena que funcionário (da Globo) é um mistério. Veja eu”, diz Chico.

Nos anos de Globo, a única coisa que Russo pediu para não fazer mais foi o Domingão do Faustão. “Como não sou puxa-saco de ninguém, eu saí. Ele (Fausto Silva) não gosta de carioca, só de paulista.” Graça Queiroz, produtora do Domingão do Faustão, diz que não é bem assim: “Todo mundo gosta do Russo por aqui”.

Matéria por ALINE NUNES