Por: Tita Pretti | 2 anos atrás

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 9 DE MARÇO DE 2015

1 – Desigualdade Salarial X Escolaridade

Em Santa Catarina, mulheres ocuparam 44,1% das vagas do mercado de trabalho catarinense em 2014, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação. Outro dado da pesquisa indica que o salário médio das mulheres corresponde a 85% do recebido pelos homens. Enquanto o salário médio de contratação entre os homens é de R$ 1.258,86, para elas o salário é de R$ 1.070,30.

Mesmo sendo maioria nos cursos de instrução superior completo em Santa Catarina (representando 59,7%), as mulheres ainda enfrentam desigualdades salariais e preconceito. É justamente nos níveis de escolaridade mais altos que a diferença salarial é mais expressiva: entre os trabalhadores com escolaridade até o 5º ano incompleto, as mulheres recebem 86,9% do salário médio de contratação dos homens. E com o superior completo, o percentual cai para R$ 83,3%.

Segundo relatório produzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), “Global Wage Report 2014/15 Wages and income inequality”, que compara dados de 130 países, a desigualdade salarial de gênero poderia ser revertida no Brasil se não houvesse discriminação salarial em relação a mulheres.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que se levássemos em conta apenas a produtividade, qualificação e experiência os salários das mulheres brasileiras poderiam ser, em média, 10,4% a mais que o dos homens.

Segundo pesquisa do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o Brasil apresenta um dos maiores níveis de disparidade salarial. No país, os homens ganham aproximadamente 30% a mais que as mulheres de mesma idade e nível de instrução.

2 – Estupro, assédio e exploração sexual

Em 2011, foram notificados no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) do Ministério da Saúde 12.087 casos de estupro no Brasil, o que equivale a cerca de 23% do total registrado na polícia m 2012, conforme dados do Anuário 2013 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Segundo a pesquisa do Instituto Avon/Data Popular realizada em 2014, 78% das mulheres afirmam que são assediadas em locais públicos (e 24% dos homens admitiram que já praticaram alguma dessas atitudes), sendo que:

– 68% afirmam que receberam uma cantada ofensiva, violenta ou desrespeitosa
– 44% dizem que homens a assediaram tocando em seus corpos durante uma balada
– 31% dizem que foram assediadas fisicamente no transporte público
– 30% afirmam que já foram beijadas à força
– 15% afirmam que homens tentaram se aproveitar por estarem alcoolizadas
– 15% afirmam que homens já tentaram tirar fotos delas sem autorização

3 – Violência doméstica e feminicídio

Embora muitos avanços tenham sido alcançados com a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), ainda assim, hoje contabilizamos 4,4 assassinatos a cada 100 mil mulheres, número que coloca o Brasil no 7º lugar no ranking de países nesse tipo de crime.

Segundo o Instituto Sangari, de 1980 a 2010, foram assassinadas no país perto de 91 mil mulheres, 43,5 mil só na última década. O número de mortes nesses 30 anos passou de 1.353 para 4.297, o que representa um aumento de 217,6% – mais que triplicando – nos quantitativos de mulheres vítimas de assassinato.

No Brasil, quase um terço dos feminicídios acontece dentro de casa, e de acordo com o Ipea, entre 2001 e 2011, uma mulher foi agredida e morta a cada uma hora e meia no país.

E o nível educacional e econômico não impede que as mulheres apanhem caladas: a violência física atinge 19% das mulheres com curso superior ou mais, contra 25% das que têm só o ensino fundamental. No entanto, as formas de controle ou cerceamento atingem 19% das mulheres com menor escolaridade, contra 27% das que possuem diploma superior. Já a violência psíquico-verbal é igual para todas, com 21%, e a sexual aponta uma diferença irrisória: 11% para quem tem ensino fundamental e 8% das diplomadas.

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4 – Machismo ainda impera entre jovens (homens e mulheres)

Segundo pesquisa do Instituto Avon/Data Popular realizada em 2014, a maioria dos jovens (tanto homens quanto mulheres) ainda aprova valores machistas e reprova comportamentos não conservadores das mulheres:

– 51% dizem que a mulher deve ter a primeira relação sexual com um namorado sério
– 41% acreditam que a mulher deve ficar com poucos homens
– 38% pensam que a mulher que tem relações sexuais com muitos homens não é para namorar
– 25% acreditam que se uma mulher usa decote e saia curta, é porque está se oferecendo para os homens
– 48% reprovam que as mulheres saiam com amigos/amigas sem o marido, namorado ou ficante sério
– 68% reprovam mulheres que tenham relações sexuais com um homem na primeira vez que sai com ele
– 76% reprovam que as mulheres tenham vários ficantes ou casinhos
– 80% reprovam que mulheres fiquem bêbada em bares, em festas ou na balada

5 – Padronização estética imposta pela sociedade e mídia

Você não fala palavrão, porque sabe que isso não é de bom tom para uma mulher. Você não deixa de fazer a unha, passar batom e fazer escova, mesmo que trabalhe em serviços masculinos em que isso seja totalmente dispensável, porque você sabe, a gente precisa ter certeza de que você ainda é mulher.

Você tem que ser perfeita, sem estrias, sem gorduras, sem pelos, sem poros. Você não é gorda, por isso cabe em roupas maravilhosas. Você também não é magra demais para podermos admirar suas curvas. Você faz de tudo para se encaixar nesse meio termo imaginário. Colocar peito, tirar barriga, levantar o nariz, depilar a laser, esticar o cabelo, clarear os dentes, malhar glúteos.

Se você é gorda, está tentando emagrecer; porque todos sabem que gordas são mal amadas e não se cuidam. Se você for velha, está tentando o tempo todo parecer mais jovem, porque mulher tem data de validade.

E é SÓ isso que a sociedade e a mídia tentam enfiar na sua goela todos os dias.

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6 – Vítimas de aborto x direito sobre o próprio corpo

No Brasil, cerca de 1 milhão de mulheres realizam abortos por ano, sendo que a maior parte realiza procedimentos clandestinos.

No ano passado, oito dias após incluir o aborto legal na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o governo Dilma Rousseff revogou a medida. O recuo do ministro da Saúde, Arthur Chioro, ocorreu logo após o início de uma campanha contrária à medida, promovida por segmentos conservadores e religiosos, canalizada por deputados de base evangélica. O aborto legal é aquele onde o médico pode realizar a operação em mulheres que engravidaram após serem vítimas de estupro, além de casos onde há risco de morte da mãe e também quando o feto é anencéfalo.

Hoje, segundo a OMS, temos 20 milhões de abortos inseguros sendo praticados no mundo. Por aborto inseguro, a Organização entende a interrupção da gravidez praticada por um indivíduo sem prática, habilidade e conhecimentos necessários ou em ambiente sem condições de higiene.

O aborto inseguro tem uma forte associação com a morte de mulheres – são quase 70 mil todos os anos. Acontece que estas 70 mil não estão democraticamente distribuídas pelo mundo; 95% dos abortos inseguros acontecem em países em desenvolvimento, a maioria com leis restritivas. Nos países onde o aborto não é crime como Holanda, Espanha e Alemanha, observa-se uma taxa muito baixa de mortalidade e uma queda no número de interrupções, porque passa a existir uma política de planejamento reprodutivo efetiva.

7 – O presente ainda guarda muito do passado

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Ao ser criada esta data, não se pretendia apenas comemorar. Na maioria dos países, realizam-se conferências, debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Mesmo com todos os avanços, elas ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história.

8 – Afinal, pra que serve mesmo essa data?

O último fato que certamente não foi comemorado pelas mulheres é justamente essa necessidade de relembrar os motivos pelos quais o Dia Internacional da Mulher ainda é celebrado. Não se tratam apenas de flores, elogios, bombons e jantares caros. Trata-se de respeito, dignidade e igualdade de direitos. É necessário lembrar que os direitos não se restringem ao voto ou a questões trabalhistas (salários ou licença maternidade).

A luta diária da maioria das mulheres se refere ao direito de sua autonomia e integridade ao corpo (aborto, direitos reprodutivos, contracepção e cuidados pré-natais de qualidade), pela proteção de mulheres e garotas contra a violência doméstica, o assédio sexual e o estupro. Meu desejo é que todas as mulheres do mundo lutem pelo empoderamento feminino e pela libertação de padrões opressores patriarcais. Assim, quem sabe um dia, não precisemos relembrar o quanto elas lutam para sobreviver e serem felizes.

Women's Liberation Movement