Por: Sistema Por Acaso | 21/12/2015

Além de contar histórias, a função do cronista é registrar aquilo que se passa ao seu redor, pois crônica deriva de “cronos”, tempo. Este 2015 começou com a trágica morte de um jaraguaense no México, e a mídia como de hábito, não virava a página para falar de outro rapaz de Jaraguá do Sul, que passou em primeiro lugar no vestibular da UFSC, era melhor ter audiência do que respeitar o luto. Na região, um agricultor ostentou uma foto com uma cobra de 3 metros que ele matou. Rapidinho, pulou do status de herói que salvou a própria vida para suspeito de crime ambiental, pois os animais – ambos – estavam em uma reserva.

Foi o ano dos “não-livros”, saiu todo mundo comprando lápis de colorir. A maior fábrica de lápis do mundo – que fica no Brasil e faz 8 milhões por dia – não conseguiu atender a todos os pedidos. Lembrei do Quintana, que dizia que os livros infantis deveriam ter espaços em branco para que as crianças fizessem desenhos de casinhas, soldados e bonecas, e estes passariam a fazer parte das histórias.

Novamente circularam mensagens de que as comportas de São Bento do Sul “foram abertas” bem no meio de um prenúncio de enchente. Alias, tivemos uma sequência de 42 dias de chuva, seguidos de dois dias de sol e choveu novamente.

As pessoas seguiram reclamando de serviços, como os de telefonia, por exemplo, nas suas linhas do tempo ao invés de procurarem um órgão competente.

Uma redação de jornal foi invadida na França e cartunistas assassinados. Uma jornalista e um cinegrafista americanos foram executados durante um link ao vivo. No Brasil, houve vários casos de justiça com as próprias mãos. Houve um atentado terrorista na Europa e uma catástrofe ambiental em Minas Gerais e as pessoas discutiram fazendo comparações. Minha tia Idelma sentenciou: “É o fim do mundo!”.

Geral passou a fabricar suas cervejas em casa e todo mundo virou cozinheiro publicamente. Millôr dizia: “O gourmet é o comilão erudito”. Feliz de quem tem alguém que cozinha bem por perto. Onde esconderam, por tanto tempo, as receitas de hambúrguer de costela?

A zumba começou com tudo e foi substituída pelo treinamento funcional. As pessoas passaram a andar de bicicleta, o que não impediu que muita gente perdesse a prova do ENEM – ou o concurso da prefeitura – e colocasse a culpa no trânsito.

No futebol nada mudou: o Inter era o favorito, o juiz foi acusado de ajudar o Timão e o Grêmio só ganhou o Miss Brasil – que de novo, foi uma gaúcha. O Jaraguá Futsal ficou no quase na LNF, mas ganhou do Joinville/Krona e é isso que interessa. Nosso jogador da seleção, o Felipe Luis, marcou um gol e terminou o ano como titular.

Comparei o prefeito com o alcaide do seriado de “The Simpsons” – que vai em quermesse, passeio ciclístico, caminhada – enviei o texto para ele e cri cri cri. Até despachar esta crônica, somente um homicídio estava computado em Springfield do Sul e um latrocínio. O cinema não inaugurou. Uma conhecida teve quase 40 parceiros sexuais diferentes, graças aos aplicativos safadinhos. Foram mais de 70 novos casos de HIV por aqui. Ouvi a frase: “Não consigo transar com quem eu não consigo conversar”. Foi o ano de popularização dos(as) “fura-olho”.

O verbete “guerreiro” perdeu o significado, passou a ser qualquer um que faça qualquer coisa. Quando achava que os caras não teriam mais desculpas diferentes para abandonar o nosso joguinho de futebol, um cara me disse: “É bem na hora que meu cachorrinho gosta de fazer xixi”.

E a revista Playboy internacional anunciou que deixará de ter nus e a versão nacional vai acabar. Como resumiu o Xico Sá, estamos vivendo assim: “um tempo em que se consome café sem cafeína, cerveja sem álcool, bolo sem açúcar, moela gourmet, feijoada completa light e Playboy sem mulher pelada”. Num texto, sugeri que as mulheres com depilação atrasada não faziam sexo ocasional e apareceram as representantes – não assumidas – da ONG Peludinhas Carentes querendo a minha cabeça. Devia ter replicado com a mensagem: “manda nudes!”, que foi a expressão que marcou este ano que finda. Feliz 2016.

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Marcelo Lamas é colunista do PorAcaso.com desde 2007. Autor de “Indesmentíveis” (Camus Editora).
marcelolamas@globo.com