Por: Sistema Por Acaso | 4 anos atrás

2014

O bom das segundas-feiras, do primeiro de cada mês e do Primeiro do Ano é que nos dão a ilusão de que a vida se renova”, ponderou Mario Quintana. Estar prestes a usar pela última vez o calendário já surrado pelos meses passados nos causa uma impressão de dever cumprido e de que tudo vai melhorar. É arriscado escrever dias antes do ano terminar.

Não precisamos recorrer às pesquisas para afirmar que foi em 2014 que mais ouvimos: “Esse mundo vai acabar!”, mas ficou por isso mesmo. Foi um ano de muitos desafios: o desafio do balde de gelo, que embora tivesse a nobreza das doações, tinha aquela bobagem do autoflagelo com água e gelo no inverno (que em SC durou um dia!) e o meu primo ainda se deu ao trabalho de juntar água da chuva, politicamente correto! Teve o desafio de virar o copo de cerveja de uma vez só, no qual tive várias participações como operador de câmera. O desafio das gurias sem maquiagem, embora a minha colega de olhos azuis não tenha sido desafiada… E o desafio da abelhinha, em que algumas meninas colocavam seus sutiãs sobre os olhos.

Este 2014 foi o ano #sqn, #semfiltro, #semlactose e #semgluten. Mas que teve muito glúteo espalhado pelo zapzap. Tem gente preferindo que descubram sua senha bancária, mas não a do telefone. Aliás, geral passou a usar o telefone como antigamente, faltando só dizer “Cambio!” e depois aguardar o áudio de outrem.

Pode ter sido o ano em que mais tivemos sexo sem compromisso, com aquele aplicativo famoso, com faixa etária e quilometragem selecionadas para encontrar alguém, abreviando em muito as relações descartáveis. Teve quem se esqueceu de desativar quando retornou de viagem e foi flagrado pela amiga da esposa. Como disse o Tim Maia: “Tudo é tudo e nada é nada!”.

Nunca se viu tanta gente correndo na rua. Há alguns anos, para ganhar uma medalhinha tinha que jogar o campeonato inteiro e ameaçar o juiz. A propósito um cabra que teve que parar seu carro e esperar os corredores passar gritou pra gente: “Vão correr no inferno!”. Só conseguiu nos fazer rir. Em tempo: a nossa corrida foi de roupa.

Nunca se viu tanta gente cozinhando. Para não ficar atrás da concorrência, até me arrisquei na gastronomia e consegui ganhar um concurso de receitas. Mas veja, eu escrevi a receita; na prática não sei nem que panela usar. Quem olha o tamanho do diploma na cozinha acha que sou gourmet.

Nunca estivemos em tantos grupos, confrarias e tribos e nunca fomos tão individualistas. Tivemos recorde de autobiografias e de velhinhas atirando em bandidos.

Num certo momento da mídia muitos diziam “somos todos macacos” e depois ninguém mais era. Todo mundo resolveu sair do armário sendo a favor ou contra o aborto, estádios de futebol versus hospitais e mensalão ou aeroporto – e teve gente brigando por causa disso.

No campo pessoal: pedi carona pro meu tio e fui parar na aula de Teologia dele; estudei um livro de psicologia social pra tentar entender qual é o problema em não estar dentro do padrão? Atualmente, além de ter que explicar porque não bebo, tenho que explicar porque não tenho interesse em ‘cannabis’. Ora bolas, pelo mesmo motivo que os homossexuais, os religiosos e os vegetarianos fazem suas opções e/ou seguem suas orientações.

Para 2015, as pessoas continuarão colando chiclete debaixo da mesa, brigando por vaga no estacionamento, desejando a vizinha do shortinho ou o grisalho da camionete, comprando no camelô, burlando o IR, cobrando hombridade dos políticos, mas tudo isso vai estar nas entrelinhas.

Valeu 2014! E que no ano que vem cada um cuide do seu nariz. Tenho esperança de que vamos evoluir, assim como Quintana: “Em cada Primeiro do Ano o céu é cuidadosamente repintado de azul”.

Marcelo Lamas, autor de Arrumadinhas e de Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora. Escreve há 20 anos.

marcelolamas@globo.com