Quem são esses jaraguaenses: apresentamos o Nelson, do Meu Boteco

Matéria pelo jornalista convidado Serginho de Almeida:

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O “nosso” boteco e seu famoso azulejo no piso

Meu Boteco do coração
Não há nada mais aprazível que após um dia de expediente, passar no boteco da esquina, tomar uma gelada, beliscar uns petiscos e bater papo com os amigos, jogar conversa fora ou até simplesmente passar o tempo e espairecer. E nesse quesito, Jaraguá do Sul conta com um lugar que já tomou conta do coração dos frequentadores, o Meu Boteco, que fica ali, na Rua Reinoldo Rau, 366, no Centro. Seja no balcão, nas mesas ou mesmo na calçada, há 12 anos este é o lugar perfeito para esses e outros momentos, sempre sob a tutela do proprietário, Nelson Raul Grando, 65 anos, o “seu” Nelson.

De fala tranqüila e demonstrando um imenso carinho pelo Meu Boteco, na conversa que tivemos ficou claro que o bar é mais que um negócio para ele. É parte de seu mundo, da sua vida e parte do seu coração que ele doa aos freqüentadores. Por isso, talvez, nessa nossa conversa, uma lágrima furtiva tenha escapado pelo olho vivido do seu Nelson. Quem sabe lembrança de bons momentos, quando falava das melhores recordações que tem do Meu Boteco. É a história desse espaço, que mora no coração dos jaraguaenses de várias gerações, que vamos contar. Vem com a gente!

Uma vida entre garrafas

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Nelson nasceu em Videira, meio-oeste catarinense, onde morou até os 36 anos. Depois de trabalhar na oficina mecânica do pai, ainda adolescente, logo entrou para o mercado das bebidas, de onde nunca mais saiu. Em Videira, trabalhava em uma revenda da Brahma. Depois, estabelecendo franquias da marca em várias cidades do estado. Em 1986, numa troca entre empresas, um profissional daqui foi para Videira e Nelson veio para Jaraguá do Sul, para trabalhar na extinta fábrica de refrigerantes Max Wilhelm, como gerente industrial. Ali permaneceu por seis anos. “Só mexi com bebidas a vida inteira, praticamente”, brinca Nelson.

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Depois de seis anos, quando a Max Wilhelm se transferiu para Blumenau, Nelson optou por não ir, porque a família não queria nova adaptação em outra cidade. Preferiu ficar em Jaraguá do Sul. Aqui, por cinco anos trabalhou como distribuidor autônomo. “Como só sabia mexer com garrafas, comprei uma caminhonete e comprava e revendia bebidas”, conta Nelson. Mas por um tempo dividiu-se em outras funções. Quando o genro comprou o antigo Sorvetão, em meados dos anos de 1990, foi ajudá-lo a tocar a empresa.

Em 2003, estava com uma sorveteria em Piçarras, em pleno verão, quando amigos e antigos freqüentadores que ficaram “órfãos” do tradicional Bar do Soni (que ficava ali, onde hoje fica a Lico) insistiram para que Nelson comprasse o estabelecimento, após o falecimento do antigo proprietário. “De tanto eles insistirem acabei pegando o bar”, diz Nelson. “Conhecia quatro ou cinco pessoas que frequentavam o Bar do Soni e foram eles, na verdade, que acabaram pesando na decisão”, explica.

"Boteco que se preze tem que ter TV ligada"

“Boteco que se preze tem que ter TV ligada”

No começo, foi mais para ter uma ocupação. A viúva de Soni, dona Rose, ajudou no primeiro mês. “Na época, eu assava frango, naquela ‘televisão de cachorro’. Era completamente diferente, eu abria às quatro da tarde e tocava até a noite”, lembra.

“Deixa lá no meu boteco”
Sobre o nome do bar, Nelson conta que ”Meu Boteco” surgiu, digamos assim, compulsoriamente. “Quando a gente trabalha com bebidas, boteco é uma palavra que está na sua boca o dia todo”, diz. Quando Nelson comprou o bar, ele não tinha nome e começou meio informal. E nisso, naquela de os fornecedores perguntarem “onde eu entrego as bebidas, onde descarrego?”, a resposta de Nelson era sempre um “deixa lá no meu boteco”.

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“Quando eu vi, estava todo mundo com aquele cadastro informal, de nome e endereço, com o nome de Meu Boteco”, relembra. A ideia na época, segundo Nelson, era um nome completamente diferente, mas ele acabou adotando o Meu Boteco para não ter que mudar tudo, e porque “Meu Boteco soava legal”.

Uma das poucas fotos do Meu Boteco onde aparece enquadrado o dono do bar

Uma das poucas fotos do Meu Boteco onde aparece enquadrado o dono do bar (também conhecido como “patrão”)

No inicio, no entanto, ele sofreu com o preconceito sobre a palavra “boteco”. O jaraguaense não tinha a cultura do boteco, do botequim. Na época, ainda significava um lugar onde tinha dois ou três “bebuns” debruçados nos cotovelos. Isso trouxe alguns problemas, inclusive, para a presença do público feminino. Levou cerca de quatro anos para mudar essa imagem.

Homens ou mulheres, famílias ou solteiros, não importa, todos estão à vontade na casa

Homens ou mulheres, velhos ou jovens, roda de solteiros ou encontro de famílias, não importa: todos estão à vontade na casa

“Quando eu comprei, era praticamente impossível entrar uma mulher”, conta. “Nem as mulheres dos freqüentadores”, emenda. Por outro lado, as mulheres não entravam porque só viam homens no bar. Ali, depois das 17h30, até por questão do horário, era fácil ver a predominância do público masculino, na hora do happy hour. Hoje em dia mudou muito. A casa recebe muitos casais e conta, também, com seu público feminino cativo.

Entre bons momentos, dificuldades e assuntos de balcão
Entre os muitos momentos marcantes que esses 12 anos gravaram na memória e na alma de Nelson, ocupam lugar especial aqueles em que o bar estava meio vazio, inverno, frio e calmo, e de repente chegava um grupo de amigos que ele nem imaginava que estavam na cidade, então tudo mudava de cara. Quando a galera com instrumentos aparecia para fazer um som, aí sim tudo aquecia.

A alegria dos clientes é que dá sentido ao bar.

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Um brinde aos amigos!

Já a maior dificuldade para manter o Meu Boteco, para Nelson, e que quase o levou a desistir no ano passado, é a falta de material humano. Segundo ele, é muito complicado encontrar pessoas para trabalhar em um “boteco”. Isso porque, conta ele, um boteco é diferente de um restaurante ou outros estabelecimentos. No boteco é mais difícil este controle sobre o consumo de bebidas, tanto em garrafas quanto em doses. E também encontrar pessoas que tratem dos clientes como ele mesmo trata. Essa deficiência está sendo suprida pelo filho Felipe, que agora trabalha com Nelson na condução do Meu Boteco.

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Casa cheia, cena comum no início do happy hour de sexta

E como todo bom boteco, o balcão e as mesas são palco de muito bate-papo. E os assuntos, segundo Nelson, são os mais variados. Além dos tradicionais futebol e política, também se fala em trabalho. Até porque muitos dos frequentadores atuam nas grandes empresas da cidade, e aí não dá pra fugir do assunto.

E um sonzinho fino também sempre está no cardápio

E um sonzinho fino também sempre está no cardápio

Mudanças constantes
“Eu sempre tenho o boteco um ano na frente”, diz Nelson, sobre as modificações que fez e faz no Meu Boteco. Ele conta que sempre procura adequar o espaço sem fugir às características de boteco. As mudanças são constantes, do interior à fachada. Detalhe: tudo que foi feito no bar, nesses 12 anos, com exceção das mesas e cadeiras, foi ele quem fez. É pegar as ferramentas e mudar o visual da casa. “O dia que me dá vontade, venho pra cá e arrumo aqui e ali”, conta.

Meu Boteco, versão d'alguns anos atrás

Meu Boteco, versão d’alguns anos atrás

E assim o Meu Boteco vai seguindo, com a cara e o jeito de botequim, com a tradicional cerveja – 60% da Brahma, segundo Nelson, que se diz fiel à marca para a qual trabalhou quase uma vida inteira -, um pouco de Original e, ainda, um chope engarrafado. Além é claro, do tradicional cardápio de boteco, que inclui porções e sanduíches. O resto é o tempero característico do botequim, que fazem do Meu Boteco, o bar do coração de Jaraguá do Sul.

Classicos pedidos: sanduba caprichado ou alcatra acebolada

Classicos pedidos: sanduba caprichado ou alcatra acebolada


Matéria pelo jornalista convidado Serginho de Almeida.

Sobre o autor

Ricardo Daniel Treis

Publicitário, sócio e editor do Por Acaso. Editoria / marketing / novas ideias. Mau humor / imaginação / boa música. Calor / cerveja / casa arrumada.

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